Capela de São Jerónimo / Ermida do Restelo / Igreja de São Jerónimo

IPA.00004064
Portugal, Lisboa, Lisboa, Belém
 
Arquitectura religiosa, manuelina e revivalista neo-manuelina. Capela de nave única, coberta por abóbada polinervada estrelada, de perfil rebaixado, a que se alia a tecnologia da abóbada-à-vela, com os blocos colocados concentricamente ao redor da pedra de fecho, apoiada em mísulas cantonais colocadas no eixo dos contrafortes exteriores, posicionados obliquamente às angulações, para melhor estancar o empuxo da abóbada, como acontece nas igrejas-salão manuelinas de Arronches e Freixo de Espada-à-Cinta. Portal, arco triunfal e arcosólios em arcos policêntricos. Portal, arcos, mísulas e bocetes com decoração predominantemente vegetalista e heráldica manuelina. Abóbada da capela-mor neo-manuelina, polinervada, estrelada, sem mísulas. Tardoz do arco-triunfal com inserção de elementos neo-manuelinos (conchas). Portal da ábside revivalista, copiando formalmente o principal.
Número IPA Antigo: PT031106320054
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Religioso  Templo  Capela / Ermida  

Descrição

Planta longitudinal regular, composta por corpo da capela e ábside rectangulares. Volumes articulados de massa horizontalista, coberta por terraço. Fachada principal: orientada, sem basamentos, antecedida por plataforma rectangular; ao centro pequeno portal de arco polilobado com decoração heráldica, emoldurado por colunelos que formam arco recto de vértices chanfrados; remate em platibanda encimada por torçal, na qual assenta cruz sobre plinto esculpido com cabeças de "putti". Fachada S.: pano do corpo da capela com janela rectangular de moldura em capialço com colunelos; pano da ábside com porta de moldura rectangular com intradorso em arco conopial com inscrição, à qual se acede por escada, e fresta de moldura rectangular enquadrada por colunelos e com meias-esferas no interior; remates em platibanda. Fachadas E. e N. cegas, rematadas em platibanda. Em todos os cunhais contrafortes seccionados e escalonados em 3 registos, colocados obliquamente, providos de gárgulas zoomórficas ao nível da platibanda, e rematados por pináculos cónicos torsos. INTERIOR: Nave única; nas paredes S. e N. 2 arcossólios encimados por arco conopial e pequeno nicho vazado na parede E.; a S. janela rectangular; cobertura em abóbada polinervada, estrelada, rebaixada, com bocetes vegetalistas e heráldicos, assente em mísulas cantonais decoradas; arco triunfal quadrilobado, de segmentos e colunelos torsos, decorados com rosetas, encimado por pedra de armas com atributos de S. Jerónimo; capela-mor com janela rectangular e porta a S., coberta com abóbada polinervada estrelada; altar com frontal de azulejos hispano-árabes.

Acessos

Rua Pero da Covilhã; Rua António Saldanha. WGS84 (graus decimais) lat.: 38,701338; long.: -9,213719

Protecção

MN - Monumento Nacional, Decreto n.º 32 973, DG, 1.ª série, n.º 175 de 18 agosto 1943 / ZEP, Portaria n.º 46/96, DR, 2.ª série, n.º 126 de 30 maio 1996 *1

Grau

1 – imóvel ou conjunto com valor excepcional, cujas características deverão ser integralmente preservadas. Incluem-se neste grupo, com excepções, os objectos edificados classificados como Monumento Nacional.

Enquadramento

Urbano, isolado, implantação harmónica.A N. e E. do conjunto situam-se as moradias mais próximas *1.

Descrição Complementar

Portal principal inscrito em moldura de perfil recto com ângulos chanfrados, apoiada em bases facetadas, rematadas inferiormente por conjunto de meias-esferas, e interrompida por pequenos capitéis decorados com botões florais em 2 níveis. Separado desta por superfície côncava, arco polilobado apoiado em finos colunelos lisos que possuem 2 ordens de capitéis com botões e bases facetadas com escócias côncavas providas de anéis torsos. O arco é constituído lateralmente por segmentos contracurvados e arco invertido central sobre o qual se inscreve brasão de armas real encimado por coroa, ladeado por 2 esferas armilares. Nas molduras das janelas da fachada S. colunelos semelhantes ao do pórtico, apresentando a fresta da ábside a mais na decoração 2 frisos de meias-esferas em torno da moldura interior. Entre esta e o ângulo formado pela justaposição do corpo da capela com a ábside, junto ao contraforte, rasga-se portal que apresenta afinidades formais com o principal, mas com moldura exterior em arco recto, pequenas flores-de-liz a rematar os segmentos do arco, que se assemelha a festonado, tendo ao centro inscrição. Todo o imóvel é percorrido superiormente por platibanda rematada por friso torso, interrompida nos 6 cunhais pelos contrafortes em posição oblíqua, escalonados, tendo no 1º e 2º registos secção rectangular, superiormente oitavada pela inclusão de chanfros com pequenas decorações geométricas, exceptuando o contraforte SE. da cabeceira, com cabeça de dragão alado e figura antropomórfica (bobo?). No topo de cada uma gárgula representando um leão sustentando brasão, um dragão, uma serpe abocanhando outra, um "putto" e uma figura fantástica. No interior, os arcossólios são emoldurados por cordão e encimados por arcos cairelados envolvidos por conopial decorado com meias esferas e uma flor, interrompidos junto à parede E. onde assentam sobre mísulas com pares de rosetas recortadas. A nave possui cobertura abobadada que conjuga a polinervura com a abóbada-à-vela, de intradorso planificado e rebaixado, assente em rede de nervuras torsas a formar estrela de 8 pontas, decorada com bocetes vegetalistas e heráldicos, sendo o do fecho de maiores dimensões contendo medalhão com anjo segurando escudo com armas de Portugal circundado por 1 burro, 1 camelo, 1 leão, 1 monge e um edifício (mosteiro?). O apoio é feito em mísulas com motivos florais, cabeças humanas, enastrados, troncos entrançados e meias-esferas. Arco-triunfal cairelado, formando tetralóbulo em torçal, decorado com motivos florais estilizados e florões nos encontros dos segmentos, assentando em colunelos torsos decorados com rosetas quadrifoliadas sobre bases facetadas com anéis, folhas estilizadas, cordões e cabeça de "putto"; envolve o conjunto outro arco, a pleno centro, provido de pequenos capitéis geométricos, encimado por pedra de armas com escudo de ponta contendo os atributos de S. Jerónimo: um leão agachado e um chapéu cardinalício; no tardoz a decoração é diferente, observando-se a inclusão de conchas nas bases. A capela-mor é coberta de abóbada polinervada estrelada de 4 pontas, decorada com meias-esferas e possuindo bocetes heráldicos, com esferas armilares e cruzes da Ordem de Cristo, sendo o do fecho pendente com armas de Portugal nas 4 faces. Não possuí mísulas, ficando as extremidades dos feixes de nervuras embebidos na caixa murária. Na parede E., à dir. do altar, pequeno nicho de arco festonado decorado com meias esferas e trevos.

Utilização Inicial

Religiosa: capela

Utilização Actual

Religiosa: igreja

Propriedade

Pública: estatal

Afectação

DGPC, Decreto-Lei n.º 115/2012, DR, 1.ª série, n.º 102 de 25 maio 2012

Época Construção

Séc. 16 / Séc. 20

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITETO: Rodrigo Afonso (1517). FORNECEDOR: Firma Grandes Armazéns Alcobia (1963-1964).

Cronologia

1496 - fundação canónica do Mosteiro de Santa Maria de Belém na Ermida do Infante e construções anexas, no lugar do Restelo, até então pertença da Ordem de Cristo; 1498 - doação régia à Ordem de São Jerónimo; 1499 - posse material do lugar e edifícios pelos jerónimos; doação da vintena para manutenção e obras do Mosteiro então fundado; 1513/1514 - D. Manuel adquire terras e casas para a cerca do Mosteiro; 1514, 20 Março - início da 1ª campanha de obras do novo Mosteiro: arranque e transporte de pedraria, montagem do estaleiro, 1ª fase da construção da igreja de Santa Maria de Belém; 1516 - transporte de blocos de pedra para murar a cerca; 1517 - construção da Capela dentro dos limites da cerca do Mosteiro, fazendo parte de um trio de ermidas para retiro e meditação dos monges, de que restam esta e a Capela do Santo Cristo (v. PT031106320074); Diogo Rodrigues, almoxarife e recebedor das obras de Belém, pagou a Rodrigo Afonso "empreiteiro da Igreja de São Jerónimo" 1.500 reais; 1572 - uma gravura do Atlas de Georgius Braun Agrippinensis mostra a Capela com corpo mais comprido, ladeado de contrafortes, rasgado por 3 janelas e coberto por telhado de 2 águas; 1833 - extinção do Mosteiro de Santa Maria de Belém, passando este com todas as suas dependências a ser ocupado pela Casa Pia; o Abade António Dâmaso de Castro e Sousa refere que a Capela era toda de "laçaria de pedra"; 1886 - data inscrita sobre a verga da porta da ábside, atestando a sua abertura e a de uma janela, integradas numa campanha de obras para adaptação do imóvel ao culto público; 1895 - 1924 - os altares laterais, originalmente cobertos com azulejos, foram retirados e cimentada a parede a que se adossavam; séc. 20, 1ª metade - a Capela foi votada ao abandono e serviu de armazém, abrigo de ciganos e desalojados e de matadouro, causando danos nas portas e cantarias; 1938 - o Ministério da Guerra requisitou o monumento à DGEMN para exercícios militares no terraço; 1940, 26 setembro - publicação de Decreto nº 30 762, no DG, 1.ª série, n.º 225, determinando a classificação da Capela como Imóvel de Interesse Público; 01 novembro - publicação do Decreto nº 30 838, DG, 1.ª série, n.º 254, suspendendo o decreto n.º 30 762, de 26 de setembro do mesmo ano, relativamente à classificação de imóveis de propriedade particular; 1945 - 1946 - a Capela foi entregue à Fábrica da Igreja Paroquial de Belém; 1953 - 1955 - plano de urbanização da costa do Restelo da C.M.L., prevendo-se que a Capela ficasse isolada das construções por adro arborizado;1954 - O Arquitecto Paisagista Gonçalo Ribeiro Telles é requisitado pelo Gabinete de Estudos e Projectos da Camara Municipal de Lisboa, para colaborar no Plano de urbanização da Encosta do Restelo; 1955 - projecto de Arquitectura Paisagista do enquadramento da capela por Gonçalo Ribeiro Telles, tendo sido posteriormente executado; 1956, 09 janeiro - Portaria a fixar a primeira Zona Especial de Proteção da Capela, publicada no DG, 2.ª série, n.º 7; 1959 - necessárias limpezas e reparação de paramentos exteriores e regularização dos terrenos; 1962 - reabertura ao culto; 1963 - 1964 - infiltrações de água na parede E.; a CAM procedeu ao fornecimento de bancos e joelheiras fabricados pela firma Grandes Armazéns Alcobia de Lisboa; 1965 - cerimónia da Bênção dos Bacalhoeiros; 1966 / 1967 - fortes infiltrações de águas pluviais; 1977 - chove no interior; feita vistoria à cobertura, verificando-se que a camada de gravilha utilizada na impermeabilização se estava a desagregar, causando entupimento das gárgulas, sendo necessário substituí-la; 1992, 01 junho - o imóvel é afeto ao Instituto Português do Património Arquitetónico, pelo Decreto-lei 106F/92, DR, 1.ª série A, n.º 126; 2007, 20 dezembro - o imóvel é afeto à Direção Regional da Cultura de Lisboa e Vale do Tejo, pela Portaria n.º 1130/2007, DR, 2.ª série, n.º 245; 2009, 24 agosto - o imóvel é afeto à Direção Regional da Cultura de Lisboa e Vale do Tejo, Portaria n.º 829/2009, DR, 2.ª série, n.º 163.

Dados Técnicos

Paredes autoportantes.

Materiais

INERTES: Cantaria calcária (fachada O. e interior); alvenaria rebocada (fachadas laterais e posterior); azulejos (altar-mor).

Bibliografia

Ementas das Obras de Santa Maria de Belém de 1517, I.A.N./T.T., Núcleo Antigo nº 813, fl.2; BRANDÃO, João, Grandeza e Abastança em Lisboa em 1552, Lisboa, 1990 (ed. orig. 1552); S. MIGUEL, Fr. Jacinto de, Relação da Insígne e Real Casa de Santa Maria de Belém, Lisboa, 1901; SILVA, César da, Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, 1903; SANCHES, José Dias, Belém e Arredores Através dos Tempos, Lisboa, 1940; RIBEIRO, Mário de Sampaio, Do Sítio do Restelo e das suas Igrejas de Santa Maria de Belém, Lisboa, 1949; ATHAYDE, Maia, Ronda dos Velhos Monumentos de Lisboa, Sep. Rev. Municipal, nº 96, Lisboa, 1963; ATANÁZIO, Manuel C. Mendes, A Arte do Manuelino, Lisboa, 1984; Idem, Lugar Novo da Manobra dos Descobrimentos, O Dia, Ano XII, nº 3 781, 24 Set. 1987; ATAÍDE, M. Maia, Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, vol. 3, Lisboa, 1988; DIAS, Pedro, A Arquitectura Manuelina, Porto, 1988; ALVES, José da Felicidade, O Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, 1989.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DRMLisboa; CML: AC; Arquivo Pessoal Gonçalo Ribeiro Telles

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DRMLisboa

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DSARH (Arquivo Geral, MI - 125), DGEMN/DRMLisboa, DGEMN/CAM-0447/14

Intervenção Realizada

DGEMN:1937 / 1938 / 1939 - restauro dos arcos falsos (arcossólios) da nave; assentamento de cantaria com argamassa hidráulica para vedar rasgos; modificação da escada principal com aproveitamento de materiais existentes; limpeza de paramentos de cantaria e tomada de juntas; substituição de rebocos avariados e de telhas; assentamento de portas em macacaúba; respaldo das abóbadas; 1939 - regularização geral do terreno e escavação; 1955 - reparação e pintura de portas; C.M.L.: 1958 - obras de rebocos, alegrar e tapar fendas das abóbadas ( sem conhecimento da DGEMN); DGEMN: 1959 - limpeza no interior; 1962 - demolição de maciços de alvenaria em socos, limpeza de paramentos de cantaria, refechamento e tomada de juntas, reparação geral de cantarias exteriores, acrescentos de "cordão" e cornijas, completar janela lateral, picar, emboçar, rebocar e caiar paredes exteriores com argamassa hidráulida, assentamento de cantaria igual à existente nas paredes interiores, reparação de portas e pintura a óleo, assentamento de degraus e pavimento de lagedo na entrada principal, reparação de telhados e madeiramento, assentamento de azulejos no altar-mor *2, vitrais, pia de água-benta e sacrário em cantaria; 1964 - limpeza das gárgulas; 1965 - obras de conservação nos paramentos exteriores: raspagem de cal das paredes e reparação dos rebocos danificados por inscrições, caiação geral, tratamento das portas com óleo de linhaça; 1968 - reparações no terraço; 1969 - impermeabilização do terraço e limpeza das gárgulas, reparação dos paramentos exteriores e caiação, pintura a óleo da grade da fresta S. e das portas.

Observações

*1 - Zona Especial de Proteção Conjunta da Capela, da Capela de Santo Cristo e o Palacete na Rua de Pedrouços, n.º 97-99. *1 - situava-se dentro da antiga cerca do Mosteiro de Santa Maria de Belém / Mosteiro dos Jerónimos (v. PT031106320005), no vértice NO., o ponto mais alto da mesma; * *5 - os azulejos de aresta e corda-seca aplicados no altar-mor vieram do Museu do Azulejo.

Autor e Data

Paula Noé 1990 / 1994 / Lina Marques 2002 / Teresa Camara 2008

Actualização

Margarida Elias (Centro de Investigação em Arquitectura, Urbanismo e Design (CIAUD-FA/UTL)) 2013
 
 
 
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