Igreja e Torre dos Clérigos

IPA.00005522
Portugal, Porto, Porto, União das freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória
 
Arquitectura religiosa, barroca. Igreja barroca de planta elíptica e capela-mor rectangular integrada no edifício da Irmandade, que liga à torre sineira imponente, formando um conjunto que se vai alongando em planta e com uma progressão decrescente de volumes e proporções mais elegantes.
Número IPA Antigo: PT011312150003
 
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Registo

Categoria

Monumento

Descrição

Planta composta por nave única elíptica, capela-mor rectangular, sacristia, casa do despacho e torre quadrada, com volumes alinhados e progressivamente decrescentes e de alçados ondulados. Coberturas articuladas com telhado diferenciado em 2 e 3 águas. Frontispício da igreja e torre em cantaria aparelhada; alçados laterais em alvenaria rebocada ritmada com pilastras. Frontespício de 2 registos separados por cornija e 3 corpos separados por pilastras. No 1º tem porta de verga recta encimado por amplo janelão curvo e 2 janelas laterais sobrepujadas por decoração vegetalista. No 2º registo, janelão com mitra papal à frente e, lateralmente, nichos com imagem de S. Pedro e S. Paulo; remate em frontão interrompido com tímpano profusamente decorado e medalhão com o monograma AM; cruz de 3 braços na empena e pináculos nos cunhais. Alçado lateral da nave e capela-mor coroado por balaustrada; na capela-mor destaca-se janela dividida em 5 sectores com rico molduramento e frontão interrompido. A casa do despacho tem 3 pisos e mezanino superior com fenestração regular. Ao centro, porta de verga recta e frontão interrompido, sobrepujado por janelas, que no 2º piso são de sacada curva e no 3º têm balcão sobre cachorros e frontão, e tarja com data de 1758. Torre de 75 m. de altura dividida em 6 registos por cornijas e com cunhais arredondados. Sobrepõem-se, no 1º registo, porta, medalhão com legenda bíblica e nicho com imagem de São Filipe de Nery; no 2º, uma janela; no 3º, sineira com frontão triangular e medalhão com monograma AM e chaves de São Pedro; no 4º moldura com legenda bíblica e, na face oposta, janela com balaustrada. Seguem-se 2 outros registos, sucessivamente mais recuados criando varandas com balaustrada e fogaréus nos cunhais; no último, abrem-se 4 sineiras, e tem remate em cúpula bolbosa de secção quadrada. Interior ritmado por pilastras coríntias, com 4 capelas colaterais com retábulos e sanefas de talha dourada, 4 portas encimadas por tribunas com varandas trabalhadas, e 2 púlpitos quadrados. Sobre a cornija saliente, abóbada com várias nervuras marcadas a cor e ao centro amplo medalhão com escudo, com o monograma AM, as chaves de São Pedro e a mitra rodeada de folhagem. Arco triunfal sobrepujado por sanefa de talha dourada. Capela-mor com cadeiral de ambos os lados, encimados por órgãos, um mudo, e amplo retábulo com trono de mármore; cobertura em abóbada de cruzaria. O edifício da Irmandade está dividido interiormente em 2 partes distintas. A S. tem 3 grandes salas, a sacristia, a Secretaria ou Casa do Despacho e a enfermaria, cada uma delas no seu piso respectivo. A N., existe uma escada monumental que liga as salas e, em cada piso, um espaço conhecido com "pátio das escadas". No 1º patamar uma passagem conduz, através do "quarto do porteiro", à escadinha em caracol da torre.

Acessos

Rua dos Clérigos, Rua de São Filipe Nery, Rua da Assunção e Campo dos Mártires da Pátria

Protecção

MN - Monumento Nacional, Decreto de 16-06-1910, DG n.º 136 de 23 junho 1910 / ZEP, Portaria, DG, 2ª série, n.º 6 de 08 janeiro 1954

Grau

1 – imóvel ou conjunto com valor excepcional, cujas características deverão ser integralmente preservadas. Incluem-se neste grupo, com excepções, os objectos edificados classificados como Monumento Nacional.

Enquadramento

Urbano, isolado e contornado por estrada urbana. Inserida em malha urbana de elevada densidade no núcleo histórico da cidade. Adro aproveitando o desnível do terreno, sendo precedido por escadaria de 2 braços, com balaustrada e urnas nos cunhais, e formando corredores ao longo das fachadas laterais.

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Religiosa: igreja

Utilização Actual

Religiosa: igreja

Propriedade

Pública: Estatal

Afectação

Época Construção

Séc. 18

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITECTO: Nicolau Nasoni. ORGANEIRO: Sebastião Ciais Ferrás de Acunha.

Cronologia

1731, 31 Maio - Em reunião da Mesa da Irmandade dos Clérigos Pobres *1, sob a presidência do Deão da Sé, D. Jerónimo de Távora Noronha Leme e Sernache, decide-se mandar construir edifício para o culto, aprovando-se a planta apresentada pelo Arq. Nicolau Nasoni; nomeia-se também quatro irmãos para fiscalizarem o bom andamento das obras; o terreno foi doado pelos reverendos Bento Freire da Silva, Manuel Mendes Machado e João da Silva Guimarães; 4 Set. - licença de construção; 13 Dezembro - reunião aprova definitivamente a planta; 1732, 23 Abril - início dos trabalhos; 2 Junho - cerimónia da colocação da 1ª pedra; 22 Dezembro - mestre pedreiro António Pereira abandona a obra devido a desentendimentos com a Irmandade, sendo substituído pelo mestre Miguel Francisco; posteriormente - novas desavenças levam à sua substituição pelo mestre Manuel António de Sousa; 1743 - Mesa decide alterar a capela-mor para receber os órgãos; 1746, 1 Dezembro - Mesa decide construir uma única torre e não duas conforme projecto inicial, sendo a direcção da obra entregue a Manuel António; 1748, 28 Julho - celebração da 1ª missa; 1748 / 1749 - aquisição a Dionísio Soares de um realejo; 1750 - Irmandade adquire terreno denominado Adro dos Justiçados ou Enforcados para construção do edifício para se instalar; 1753 - Luís de Almeida Barbosa doa o restante terreno necessário para a construção que logo se inicia; 1754 / 1763 - construção da torre; 1758 - conclusão do edifício da Irmandade e das obras da igreja; 1759 - formado o coro de capelães cantores; 1763 - encomenda de sinos em Braga; 1771 - nova encomenda de sinos em Hamburgo; posteriormente - a Irmandade decide promover uma indústria de Fundição de sinos, de onde saíram sinos para a torre e outras igrejas da cidade; 1773, 13 Agosto - a Mesa da Irmandade dos Clérigos decidiu mandar fazer os órgãos da capela-mor, sendo a feitura dos órgãos confiada ao organeiro D. Sebastião Ciais Ferraz da Cunha; 1773 - abertura de arcos para colocação dos órgãos; 1774, 26 Abril - D. Sebastião Ciais Ferraz da Cunha compromete-se a construir os órgãos; 1779 - o órgão do lado da Epístola estava concluído; o órgão da parte do Evangelho não estava concluído; a vistoria do órgão é feita por Simão Fernandes Coutinho; 12 Dezembro - sagração da igreja por D. Frei João Rafael de Mendonça; nova encomenda de órgãos, a João Filipe Fernandes; 1786 - venda do zimbório envidraçado da nave por ter rachado a abóbada com o seu peso; 1790 - reparação do órgão da Epístola, com conserto dos foles, pelo organeiro José Simões Carvalho; 1791 - manda-se chumbar na torre e abóbada um número indeterminado de lampiões; 1793 - novo conserto do órgão da Epístola, mas mais profundo, por estar desafinado; 1802 / 1827 - pedido de reparação dos órgãos; 1827, 7 Junho - foi resolvido compor o órgão do lado do Evangelho; 1812 - execução da tela do retábulo-mor por Joaquim Rafael; 1832, 29 Dezembro - Portaria de D. Pedro IV para colocar na torre o relógio do Convento dos Lóios; 1835 - reparação do relógio da torre; 1865, 1 Fevereiro - em reunião da Mesa, foi acordado mandar desmantelar do órgão do lado da Epístola; 1886 - restauro da tela do retábulo-mor por Manuel Moura; 1995 - compra e montagem de carrilhão por 49 mil contos.

Características Particulares

Os vários corpos do edifício são dispostos de modo pouco vulgar, mas com grande virtuosismo e tirando partido do desnível do terreno. O frontispício da igreja e a torre revelam uma linguagem arquitectónica e decorativa característica de Nasoni sendo particularmente original a disposição dos sinos e do relógio. O carrilhão é, aliás, um dos maiores do país. No interior, retábulos de talha dourada em estilo joanino.

Dados Técnicos

Sistema estrutural de paredes portantes e estrutura mista.

Materiais

Granito do Porto, de grão médio; ferro, madeira, talha, telas.

Bibliografia

FONSECA, Francisco José, Guia histórico do viajante no Porto e arrabaldes, Porto, 1864; OLIVEIRA, Zacarias, Uma Torre na Cidade, Porto, s.d.; PATRÍCIO, Francisco José, Notícia da Egreja dos Clérigos do Porto archeologia religiosa, Porto, 1907; BASTO, Artur de Magalhães, Nicolau Nasoni in O Tripeiro, Porto, V série, ano VI, 1950; COUTINHO, Bernardo Xavier, A Igreja e a Irmandade dos Clérigos. Apontamentos para a sua História, Porto, Documentos e Memórias para a História do Porto, XXXVI, 1965; SMITH, Robert, Nicolau Nasoni. Arquitecto do Porto, Lisboa, 1966; COUTINHO, Bernardo Xavier, Novos subsídios para a história da Igreja e Irmandade dos Clérigos, Porto, Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, Março - Junho, 1972; PINTO, António Ferreira, Bicentenário da Igreja dos Clérigos, 1732 - 1932, Porto, s.d.; FERREIRA ALVES, Natália Meirinho, A arte da talha no Porto na Época Barroca. Artistas e clientela. Materiais e técnica, 2 vols., Porto, Dissertação de Doutoramento em História da Arte à Faculdade de Letras do Porto, 1986; Idem, Nicolau Nasoni 1691 - 1773, Lisboa, 1973; MEIRELES, Maria Adelaide, Catálogo dos Livros das Plantas, Arquivo Histórico, Câmara Municipal do Porto, 1982; A Cidade do Porto na obra do Fotógrafo Alvão, 1872 - 1946, Porto, 1984; BRANDÃO, Domingos de Pinho, Órgãos da Sé do Porto e actividade de organeiros que nesta cidade viveram, Porto, 1985; BORGES, Nelson Correia, O Barroco Joanino. A Arquitectura in História da Arte em Portugal, vol. 9, Lisboa, 1986, p. 7 - 39; ALVES, Joaquim Jaime Ferreira, O Porto na época dos Almadas (1757 - 1804). Arquitectura. Obras Públicas, 2 vols., Porto, 1988 / 1990; CASTRO, Elda de, RODRIGUES, J. Delgado e CRAVO, M. R. Tavares, Parecer sobre a limpeza da fachada nascente da Igreja dos Clérigos, no Porto (Estudo realizado para a DGEMN), Lisboa, L.N.E.C., 1987; VALENÇA, Manuel, A Arte Organística em Portugal, vol. II, Braga, 1990; Idem, Estudo relativo à alteração e à conservação do granito da Torre dos Clérigos (Estudo realizado para a DGEMN), Lisboa, L.N.E.C., 1991; OLIVEIRA, Amélia, Igreja, Edifício e Torre dos Clérigos in Porto de Encontro, nº 9, Jan. - Fev. 1993; OLIVEIRA, Eduardo Pires de, O edifício do Convento do Salvador - De mosteiro de freiras ao Lar Conde de Agrolongo, Braga, 1994; QUARESMA, Maria Clementina de Carvalho, Inventário Artístico de Portugal. Cidade do Porto, vol. 13, Lisboa, 1993; Porto a Património Mundial, s.l., 1995; AIRES-BARROS, Luís, As Rochas dos Monumentos Portugueses: tipologias e patologias, vol. II, Lisboa, Abril 2001; LEITE, Maria João, Primeira fase das obras termina em Fevereiro in Metro do Porto, 4 Janeiro 2007.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREMN

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREMN

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREMN

Intervenção Realizada

1982 - Substituição das coberturas; limpeza da fachada principal; pintura das fachadas laterais; 1984 - beneficiações diversas e instalação eléctrica; 1985 / 1986 - beneficiações diversas; 1987 - beneficiação da fachada principal; 1992 - beneficiação da fachada N., rebocos e carpintarias; 1993 - limpeza da cantaria da torre; 2006 / 2007 - em obras (conservação do exterior e caixilharia); 2013 - restauro da Capela de Nossa Senhora da Lapa, conservando a talha, azulejo e imaginária.

Observações

*1 - Em meados do Séc. 17 foi instituída a Irmandade dos Clérigos Pobres, estabelecendo-se então na Igreja do colégio dos órgãos, ainda com o nome de Irmandade de S. Filipe de Nery. Os seus estatutos foram aprovados a 20 de Setembro de 1665. Em 1673 foi tranferida para a Igreja dos Padres congregados e em 26 de Maio de 1688 para a Igreja da Misericórdia. Por iniciativa dos padres capelães do coro da Misericórdia, decidiu-se então criar uma Irmandade, reunindo numa única confraria os elementos das de S. Filipe de Nery e de S. Paulo. Assim nasceu a Irmandade dos Clérigos Pobres de Nossa Senhora da Misericórdia, S. Pedro ad víncula e S. Filipe de Néry. *2 - Foi na reunião da Mesa realizada em 31 de Maio 1731 que se nomearam, para fiscalizar o andamento das obras, os irmãos Manuel Ferreira da Costa, António Gomes de Sousa, Francisco Fernandes Paulino e João da Herdade Coelho. Decidiu-se ainda consagrar a futura igreja a Nª Sª da Assunção, eleita padroeira da Irmandade. *3 - Quer as plantas, que Nicolau Nasoni elaborou, quer o seu acompanhamento da obra não foram pagos, pois ele desejou apenas ser aceite como membro da Irmandade. Também conforme seu pedido, foi sepultado na Igreja dos Clérigos, sendo assistido pela Irmandade como irmão pobre. Desconhece-se, no entanto, o local exacto da sua sepultura. *4 - Trabalharam na obra numerosos artistas. Por ex., as estátuas de S. Pedro e de S. Filipe de Nery do frontespício são de Jacinto Vieira; o retábulo-mor foi desenhado por Manuel dos Santos; as obras do edifício da Irmandade foram dirigidos pelo mestre Manuel António Sousa, ajudados pelos mestres Domingos da Costa, Caetano Pereira e Manuel Bento da Silva; na fachada N. deste edifício e, nomeadamente na designada porta do Anjo, colaboraram os mestres José da Costa Ferreira e João Alves, e os carpinteiros Manuel da Silva, Domingos Moreira e Manuel da Cruz; o arcaz da sacristia foi executado pelo mestre carpinteiro Tomás Pereira da Costa, com a ajuda de outros, sobretudo João Ferreira, segundo desenho de Manuel dos Santos Porto. As pratas existentes na igreja foram feitas pelos melhores ourives da cidade, como Julião Pereira de S. Payo, Domingos de Sousa Coelho, José Ferreira, Manuel Roiz, Domingos Lopes, etc. *5 - A torre tem 2 campanários e 10 sinos: 5 no 1º, sendo maior o central ( das horas ), e 5 no 2º, 3 grandes e 3 pequenos. Ela teve várias utilizações de carácter público. Serviu como telégrafo comercial, nela se colocando uma bandeira quando chegava o "paquete" para que os comerciantes soubessem da sua aproximação, e foi usada para o relógio da cidade. *6 - A Irmandade dos clérigos possui um riquíssimo Arquivo com documentação referente às obras e à História da vida assistencial, religiosa e espiritual.

Autor e Data

Isabel Sereno 1994 / Paula Noé 1997

Actualização

 
 
 
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