Edifício na Rua Garrett, nº 102 a 122 / Café A Brasileira do Chiado / Loja David & David / Pastelaria Bénard / Livraria Sá da Costa / Hotel Borges

IPA.00005957
Portugal, Lisboa, Lisboa, Santa Maria Maior
 
Arquitectura residencial, pombalina e arquitectura comercial, ecléctica e modernista. Edificação residencial pombalina, de volumetria compacta, perfurada por saguões, com 5 pisos (um deles ao nível da cobertura), e piso térreo integralmente ocupado por estabelecimentos comerciais com fachadas decoradas ao gosto ecléctico, com excepção para a Livraria, já de linhas modernistas. Apresenta alçados dominados pela regularidade - quer no que respeita à abertura de vãos quer no tratamento dos mesmos. Fachada principal com 1º e 2º andares iguais, marcados pela presença de janelas de sacada com varandins em toda a extensão murária que, dado o seu comprimento, asseguram a dinamização da respectiva fachada.
Número IPA Antigo: PT031106270201
 
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Registo

Categoria

Monumento

Descrição

Edifício de planta quadrangular, perfurada ao centro por dois saguões de planta rectangular, com disposição horizontal de volumes e cobertura em telhado de duas e quatro águas. Devido ao desnível do terreno, a fachada principal (S.) é composta por cinco pisos (um deles ao nível da cobertura), além da metade E., beneficiada de sobrelojas, enquanto a fachada posterior se compõe de três pavimentos. A composição do edifício obedece à sua ocupação: piso térreo integralmente ocupado por lojas (CAFÉ "A BRASILEIRA DO CHIADO", LOJA DAVID & DAVID, PASTELARIA BÉNARD e LIVRARIA SÁ DA COSTA), tendo todas decorações diferenciadas, de acordo com o gosto da época em que foram remodeladas; os restantes pisos servem de instalação ao HOTEL BORGES, com acesso pelo piso térreo - rasgado a eixo na frontaria -, mantendo-se nos alçados o risco primitivo. O imóvel caracteriza-se por uma ampla fachada principal, apresentando, acima do piso térreo, cunhal em cantaria no ângulo E. e panos de muro em reboco pintado animados pela abertura de vãos de verga recta com emolduramento simples de cantaria, a ritmo regular: nos dois primeiros pisos, 12 janelas de sacada - individualmente servidas por varandins de base em cantaria e guarda metálica em ferro fundido - e no último andar, 12 janelas de peito. A fachada posterior, à face de uma rua a cota superior, tem 3 pisos, também eles rasgados por 12 vãos em cada um: o piso térreo é marcado pela alternância de vãos de verga curva com vãos de verga recta, e os pisos superiores - separados por friso de cantaria - por janelas de peito. O edifício é rematado por cornija continuada, acima da qual se eleva platibanda em balaustrada ritmada por plintos *2. CAFÉ "A BRASILEIRA" - Planta rectangular, de dois pisos, incluindo cave. Antecede a frontaria troço de calçada portuguesa com a designação do estabelecimento e respectivo número de polícia. Fachada estreita, em cantaria, com com um único vão, cuja decoração assenta na diferenciação textural e policromática dos seus elementos: um arco de volta inteira, assente em base pronunciada e vazado nas cantoneiras, onde se encontram duas esculturas debruçadas sobre o extradorso do arco; dois pilares de secção quadrada dividem o vão, criando três portas envidraçadas, seguida de bandeira, envidraçada e gradeada; na superfície entre a bandeira e o intradorso do arco observa-se decoração relevada, tendo por motivo central uma figura masculina tomando café, envolvida por motivos vegetalistas e encimada pela designação do estabelecimento; as caixilharias destacam-se pelo seu desenho curvilíneo. INTERIOR - sala estreita e comprida, com pavimento em mosaicos de mármore de cores alternadas (branco e preto), tecto com estuques ornamentais e panos ritmados, a espaços regulares, por duplas pilastras em mármore negro com capitéis decorados, encimadas, na sanca, por ornatos de estuque (concha central, envolta por volutas e elementos vegetalistas); nas paredes laterais, lambril de madeira à altura da base das pilastras, seguido de painéis espelhados rematados por destacado entablamento de madeira; entre os painéis e a sanca, enquadradas lateralmente pelas pilastras, estão expostas telas da autoria de pintores contemporâneos portugueses; as paredes de topo incluem também, a todo o comprimento, uma tela, apresentando a do fundo, sobre os painéis espelhados, um relógio ao centro, ladeado por 2 frontões triangulares com decoração vegetalista. A zona de serviço ao balcão situa-se à direita, ao longo de toda a parede E.; à esquerda, depois da escada que, em 2 lanços rectos conduz à cozinha instalada na cave, segue-se a zona de mesas - de tampos rectangulares em mármore branco sobre estrutura curvilínea de ferro fundido. LOJA DAVID & DAVID - Planta rectangular. Fachada principal definida por uma superfície de cantaria até à altura do primeiro piso do Hotel, sobre a qual se rasgam três vãos em arco de asa de cesto, distribuídos por duas portas laterais, em caixilharia de madeira envidraçada, e pela montra, ao centro, de maiores dimensões. Ladeiam a montra duas placas com a identificação do estabelecimento, encimadas por elementos decorativos em pedra, de temática naturalista. Acompanhando a curva da bandeira das portas, observa-se decoração em pedra de motivos florais. INTERIOR - Pavimento de soalho e tectos com estuques ornamentais para um espaço dividido em duas zonas distintas. Na primeira, expositores de madeira em estilo neoclássico (corpo fechado com gavetas, aberto por prateleiras em cima), a toda a altura, encostados às paredes, balcões (uns acompanhando a disposição dos expositores, outros centrados no espaço), igualmente em madeira decorados com motivos vegetalistas, e cinco vitrines de vidro com base em madeira e estrutura em latão (localizadas junto à porta de entrada e na traseira da montra); o tecto, em caixotões, apresenta decoração geométrica com motivos vegetalistas em estuque cor marfim e dourado; nesta zona sobressaem ainda três colunas (elementos estruturais) de ferro, pintadas a marfim e rematadas por capitel decorado. Segue-se, ao fundo, uma segunda zona constituída por duas salas com comunicação directa entre os três espaços da loja, com a da esquerda a fazer ligação com o escritório, revestidas por móveis idênticos aos descritos. PASTELARIA BÉNARD - Planta trapezoidal, de dois pisos, incluindo sobreloja. Fachada principal com demarcação dos pisos, assinalada por moldura saliente apoiada em mísulas. Piso térreo revestido a cantaria, rasgado por três vãos rectos correspondentes, o central, à porta envidraçada de acesso à pastelaria, demarcada verticalmente por duas colunas adossadas e encimada por elementos decorativos em pedra, e os laterais, a duas montras com emolduramento simples de cantaria; por cima correm duas janelas, abertas no pano de reboco comum a todo o edifício. INTERIOR - Diferenciação funcional de espaços. O primeiro, que funciona como pastelaria, tem zona de serviço ao balcão à esquerda, enquanto a parede oposta é ocupada por um armário de portas, encimado alternadamente por espelhos e expositores, seguindo-se a zona de mesas; pavimento em pedra, tecto com ornamentos de estuque e lambril de madeira nas paredes. Ao fundo situa-se o segundo espaço, com acesso por uma porta envidraçada à esquerda, constituído por: zona de recepção, onde se situa uma escada em caracol de acesso à sobreloja (escritório), seguida pela sala de jantar e instalações sanitárias, separadas por construção de madeira e vidro. O tecto da zona de recepção é em estuque simples e o da zona das mesas em abóbada de aresta. O pavimento revestido a tijoleira, as paredes apresentam lambril de madeira e o mobiliário é em madeira de linhas sóbrias. Este segundo espaço conta com um piano e um bar de estrutura em madeira. LIVRARIA SÁ DA COSTA - Planta rectangular, de dois pisos, incluindo a sobreloja. A decoração exterior da livraria abrange dois alçados (principal e lateral). A composição da frontaria (S.) é enquadrada pelo revestimento do cunhal e por um friso superior saliente que corre junto às sacadas do 1º piso do hotel. Piso térreo aberto por três vãos de moldura recta, correspondentes a uma porta central, coroada por frontão e tendo no tímpano um livro aberto em baixo relevo. Esta porta dá acesso a pequeno átrio, a anteceder uma porta interior. Lateralmente, duas montras à face da fachada com emolduramento simples em mármore preto, encimadas pelas designações "livros estrangeiros" e "livros nacionais". No piso superior, fenestração contínua tripartida, figurando entre as janelas e as montras, a todo o comprimento da fachada, o nome do estabelecimento com o número de polícia.

Acessos

Rua Garrett, n.º 100 - 122

Protecção

IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto n.º 67/97, DR, 1.ª série-B, n.º 301 de 31 dezembro 1997 *1 / Incluído na classificação da Lisboa Pombalina (v. IPA.00005966) / Parcialmente incluído na Zona de Proteção do do Aqueduto das Águas Livres (v. IPA.00006811), na Zona de Proteção do Castelo de São Jorge e restos das cercas de Lisboa (v. IPA.00003128), na Zona de Proteção da Igreja de Nossa Senhora dos Mártires (v. IPA.00003141) e na Zona de Proteção da Fachada do Teatro Ginasio (v. IPA.00003700)

Grau

3 – imóvel ou conjunto de acompanhamento que, sem possuir características individuais a assinalar, colabora na qualidade do espaço urbano ou na ligação do tempo com o lugar, devendo ser preservado em tal medida. Incluem-se neste grupo, com excepções, os objectos edificados classificados como Valor Concelhio / Imóvel de Interesse Municipal e outras classificações locais.

Enquadramento

Urbano, localizado em área histórica central, numa artéria caracterizada pela homogeneidade das frentes construídas, com excepção para a presença da Igreja de Nossa Senhora dos Mártires (frente S., v. PT031106200085 ). Implantado em terreno desnivelado, integra um quarteirão, de forma quadrangular, constituinte da malha urbana do Chiado. Ocupa mais de metade da área do quarteirão e tem a O. um edifício adossado, cuja fachada principal é voltada ao Largo do Chiado. O espaço fronteiro (S.), de circulação pedonal, é um sítio de estar, marcado pela existência de esplanadas e bancos públicos, bem como por estabelecimentos comerciais, destacando-se os edifícios do Ramiro Leão ( v. PT031106200522 ) e do Paris em Lisboa ( v. PT031106200647 ).

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Residencial: edifício / Comercial: café

Utilização Actual

Comercial: loja, café e pastelaria / Comercial e turística: hotel

Propriedade

Privada: pessoa singular

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 19 / 20

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITECTO: Manuel Joaquim Norte Júnior (1908). ENGENHEIRO: Jaime Pereira Gomes (1955). PINTORES: Almada Negreiros (1922-1923); António Palolo (1971); António Soares (1922-1923); Bernardo Marques (1922-1923); Carlos Calvet (1971); Eduardo Nery (1971); Eduardo Viana (1922-1923); Fernando Azevedo (1971); João Hogan (1971); João Vieira (1971); Joaquim Rodrigo (1971); Jorge Barradas (1922-1923); José Pacheko /1922-1923); Manuel Baptista (1971); Nikias Skapinakis (1971); Stuart Carvalhais (1922-1923); Vespeira (1971).

Cronologia

Séc. 19 - o Hotel Borges é fundado na Travessa de Estevão Galhardo, na proximidade do então Hotel Universal (instalado no antigo Palácio Barcelinhos, depois Grandes Armazéns do Chiado); funcionou seguidamente em dois andares do edifício em cujo piso térreo se localizava o estabelecimento comercial Ramiro Leão, passando, no que podemos considerar uma terceira fase da sua existência, para o edifício onde na actualidade se encontra; 1868 - Elie Bénard inaugura a sua padaria na Rua Garrett (n.º 104-106); 1883 - António Borges Areias é proprietário do então designado Grande Hotel Borges; 1905 - fundado pela firma Teles e Cª, e no espaço antes ocupado por uma camisaria, é aberto um estabelecimento de venda de cafés (n.º 120-122); 1906 - para a loja contígua ao café, muda-se a retrosaria dos Irmãos David, desde 1882 aberta ao público na Rua Nova do Almada: o negócio é alargado a produtos de perfumaria (de fabrico artesanal) e a sociedade, formada por José António David e Francisco Xavier David, passa a designar-se David & David; 1908 - após obras de ampliação e decoração, conforme projecto de Manuel Joaquim Norte Júnior (1878-1962), "A Brasileira" reabre como café; 1911- neste ano o Hotel passa para a propriedade da firma Viúva de António Borges & Cª Ldª; 1922 / 1923 - alguns dos artistas que frequentam "A Brasileira" pintam um conjunto de telas, dentro das novas correntes artísticas, que passam então a estar expostas nas paredes do café: são estas da autoria de Jorge Barradas, António Soares, Eduardo Viana, José Pacheko, Almada Negreiros, Bernardo Marques e Stuart Carvalhais; 1943 - inauguração da Livraria Sá da Costa, transferida do antigo estabelecimento do Largo Dr. Sousa Macedo (onde funcionava desde 1913) para o n.º 100-102 da Rua Garett; 1950 / 1960 - durantes estas décadas o café "A Brasileira" esteve na eminência de ser encerrado em definitivo; 1969 - as telas dos pintores modernistas são vendidas a um particular; 1971 - o café sofre melhoramentos, vindo, inclusivamente, outras telas de pintores contemporâneos a ocupar o espaço das anteriores; 1993 - no âmbito do programa Lisboa 94 Capital Europeia da Cultura, o café "A Brasileira" é beneficiado por obras de remodelação e restauro; 2006, 22 agosto - parecer da DRCLisboa para definição de Zona Especial de Proteção conjunta do castelo de São Jorge e restos das cercas de Lisboa, Baixa Pombalina e imóveis classificados na sua área envolvente; 2011, 10 outubro - o Conselho Nacional de Cultura propõe o arquivamento de definição de Zona Especial de Proteção; 18 outubro - Despacho do diretor do IGESPAR a concordar com o parecer e a pedir novas definições de Zona Especial de Proteção.

Características Particulares

Apesar da discrição que caracteriza o tratamento dos respectivos alçados, o edifício destaca-se da malha urbana onde se insere pela grande extensão do alçado principal, que integra, ao nível do piso térreo, um notável conjunto de estabelecimentos comerciais, alguns deles abertos ao público no final do século 19. A Livraria Sá da Costa apresenta uma das poucas montras feitas no Chiado ao gosto modernista. Estes estabelecimentos constituem memória residual da vivência do Chiado, têm todos eles actividade dentro da exploração comercial inicial, bem como mantêm a decoração exterior e interior, pesem algumas modificações.

Dados Técnicos

Paredes autoportantes

Materiais

Alvenaria mista, reboco pintado, cantaria de calcário, mosaico de mármore, estuque pintado, ferro forjado e fundido, bronze, vidro, madeira

Bibliografia

ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, Vol. III, Livro 12, Lisboa, s.d.; COSTA, Mário, O Chiado Pitoresco e Elegante, Lisboa, 1965; "A Brasileira", in A Capital, 1 Set. 1971; FRANÇA, José-Augusto, Os Quadros de A Brasileira, s.l., 1973; FRANÇA, José-Augusto, A Arte em Portugal no Século XX, Lisboa, 1974; DIAS, Marina Tavares, Lisboa Desaparecida, Lisboa, 1987; "O fim da Brasileira", in Público, 4 Maio 1993; FRANÇA, José-Augusto, (coord. de), A Sétima Colina. Roteiro Histórico-Artístico, Lisboa, 1994; MEDEIROS, Carlos Laranjo, (coord. de), Lojas Antigas de Lisboa, Vol. II - O Chiado, o Carmo e a Trindade, Lisboa, 1994

Documentação Gráfica

CML: Arquivo de Obras, Procº nº 39.728

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID; CML: Arquivo de Obras, Procº nº 39.728; IPPAR

Intervenção Realizada

EDIFÍCIO DO HOTEL BORGES - Proprietário: 1883, Outubro - pintura de cantarias; 1911, Agosto - demolição de uma parede com vista à construção de uma divisória envidraçada, consolidação do vigamento, reparações e pinturas interiores; 1911, Outubro - transformação de um vão de janela em porta no último andar, construção de marquise e pia para escoamento de esgotos ; 1912, Março - construção de gradeamento de ferro no telhado ; 1938, Abril - ampliação e pinturas interiores, demolição de tanques de lavagem de loiça, substituição do pavimento; 1939, Março - pinturas interiores e transferência da casa das caldeiras; 1942, Maio - limpeza da porta n.º 110 e montra; 1943, Junho - obras interiores; 1948, Julho - pequenas obras de reparação interior; 1955, Julho - pequenas obras de reparação interior; 1958, Junho - abertura de caixa na fachada do edifício para colocação de uma boca de incêndio; instalação de elevador segundo projecto da responsabilidade do engenheiro civil Jaime Pereira Gomes; 1958, Fevereiro - alteração da fachada; 1961, Julho - pequenas obras de reparação interiores; 1970 - pequenas obras de reparação interiores; CML (Conservação de Edifícios DCEOD-DREP): 2001 - recuperação do edifício, intervenção coerciva. CAFÉ "A BRASILEIRA" - Proprietário: 1971 - obras de manutenção e beneficiação; CML: 1993 / 1994 - obras de restauro.

Observações

*1 DOF: Edifício na Rua Garrett, onde se encontra instalado o café A Brasileira, também denominado «Brasileira do Chiado», incluindo o próprio café e o troço de calçada fronteiro à porta em que se lê o nome do estabelecimento e os números de polícia.

Autor e Data

Eva Antunes e Paula Noé 1990 / Teresa Vale e Carlos Gomes 1995 / Teresa Vale, Maria Ferreira e Sandra Costa 2001 / Marta Airoso 2001

Actualização

Filomena Bandeira 2002
 
 
 
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