Ermida de Nossa Senhora dos Anjos / Ermida dos Anjos e Treatro

IPA.00008140
Portugal, Ilha de Santa Maria (Açores), Vila do Porto, Vila do Porto
 
Arquitetura religiosa, quinhentista e maneirista. Capela de planta retangular, de nave única e espaço único, com iluminação frontal e lateral e teto de masseira. Fachada principal com cunhais em cantaria, terminada em empena e rasgada por portal de verga reta e janela. Nas fachadas laterais, terminadas em beirada dupla, rasgam-se portais em arco de volta perfeita, de aduelas largas e um outro de verga reta. Interior com coro-alto de madeira, púlpito setecentista no lado do Evangelho, com guarda formada por balaústres e quarteirões, seguindo um esquema comum na ilha, e capela-mor pouco profunda, tipo nicho, com retábulo-mor formado por painéis pintados sobre madeira, do séc. 16 / 17, alusivo ao orago; o frontal de altar é maneirista, de influência oriental, inspirados nos frontais têxteis, tendo ao centro cartela com figuração hagiológica. O treatro apresenta a tipologia dos treatros marienses, de planta retangular e corpo tipo alpendre, com cobertura sustentada por pilares assentes em murete e acesso por vão frontal.
Número IPA Antigo: PT072107050005
 
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Registo

Categoria

Monumento

Descrição

Planta retangular simples de nave única, tendo adossado à fachada lateral esquerda da capela a sacristia retangular e à fachada posterior, em eixo, treatro retangular. Volumes escalonados com cobertura uniforme na nave, em telhados de duas águas, de uma na sacristia e em três no treatro, com telha de meia-cana. CAPELA: com fachadas rebocadas e pintadas de branco a principal virada a O. e terminada em empena, coroada por cruz latina de cantaria e cunhais em cantaria, coroados por pináculos piramidais sobre plintos; é rasgada por portal de verga reta simples e por janela retangular, com caixilharia de guilhotina. Fachadas laterais terminadas em dupla beirada e rasgadas por portal em arco de volta perfeita no início da nave, abrindo-se ainda, na lateral direita, interrompendo o baileu adossado, porta travessa de verga reta, encimada por inscrição, e duas janelas retangulares; a sacristia na lateral esquerda, terminada em meia empena, é rasgada por porta de verga reta virada a O. e por janela de peitoril virada a N.. Fachada posterior terminada em empena. INTERIOR com as paredes rebocadas e pintadas de branco, pavimento em lajes de cantaria e teto de masseira em pladur, com tirantes de madeira. Coro-alto de madeira, com guarda em falsos balaústres, acedido por escadas dispostas no lado do Evangelho; no sub-coro, o portal é ladeado por pia de água benta em cantaria, de perfil curvo, tal como a porta travessa. No lado do Evangelho dispõe-se púlpito de bacia retangular, com guarda em balaustrada, com valaústres de bolachas intercalados por quarteirões, acedido por escada, com guarda igual, encimado por baldaquino em talha, com lambrequim e tendo na face inferior resplendor inscrito. Sobre o supedâneo de madeira, rasga-se neste mesmo lado porta de verga reta, com moldura simples, de acesso à sacristia. Na parede testeira abre-se a capela-mor pouco profunda, em arco de volta perfeita, sobre pilastras com bases em ponta de diamante, capitéis fitomórficos e tendo na cobertura cartela recortada. Alberga retábulo-mor, de três eixos, delimitados por duas pilastras exteriores, com painéis pintados, sobre madeira, representando no central a Coroação da Virgem, ladeada por anjos músicos, e nos laterais dois Santos de cada lado, com inscrição identificativa, figurando, no lado do Evangelho, um santo não identificado e São Filipe e, no da Epístola, São Cosme e São Damião; ático adaptado ao perfil da cobertura, com painel pintado com uma Adoração dos Reis Magos. Altar paralelepipédico com frontal revestido a azulejos policromos (com 6 x 13), a imitar brocado, de "aves e ramagens" e cartela central com imagem de São Bartolomeu, delimitado por sanefa franjada e sebastos. TREATRO de planta retangular, mais estreita que a capela, delimitado por murete, rebocado e caiado, capeado a cantaria, sobre o qual assentam seis pilares de cantaria, os quatro frontais mais estreitos e com base e capitel quadrangular marcados, sustentando o entablamento, em alvenaria rebocada e pintada, e a cobertura, com beirada dupla. Apresenta frontalmente acesso, precedido por dois degraus. INTERIOR com parede rebocada e caiada, pavimento em cimento e teto de madeira, de dois panos sobre travejamento. À parede fundeira encosta-se mesa de altar baixa e rudimentar, em cantaria e surge colocado painel de azulejos policromos, alusivos ao Espírito Santo. No ângulo esquerdo tem pequena prateleira de madeira.

Acessos

Lugar dos Anjos; Estrada Regional 2

Protecção

IIP - Imóvel de Interesse Público, Resolução do Presidente do Governo Regional n.º 58/2001, JORAA, 1.ª série, n.º 20 de 17 maio 2001

Grau

2 - imóvel ou conjunto com valor tipológico, estilístico ou histórico ou que se singulariza na massa edificada, cujos elementos estruturais e características de qualidade arquitectónica ou significado histórico deverão ser preservadas. Incluem-se neste grupo, com excepções, os objectos edificados classificados como Imóvel de Interesse Público.

Enquadramento

Peri-urbano, isolado, adaptado ao perfil suave do terreno, inserido em adro vedado por muro rebocado e caiado, capeado a cantaria, com acessos laterais e pavimentado em alvenaria de pedra com caravelas junto aos portais axial e laterais e uma coroa do Espírito Santo junto ao treatro. No ângulo SO. ergue-se sobre o muro do adro sineira em cantaria, em arco de volta perfeita, assente em pilares, ladeados de aletas e terminada em cornija reta. Perto do campanário ergue-se uma araucária. Em frente da fachada posterior, mas do outro lado da estrada regional, desenvolve-se largo com estátua em bronze de Cristóvão Colombo. A N. do largo, ergue-se a copeira.

Descrição Complementar

Sobre o portal da fachada lateral direita existe cartela oval com a inscrição: "RECTIFICADA / EM / 1893". O resplendor do baldaquino do púlpito tem a inscrição "A.D.R.C.V. / D.S.S.B.D.P.D. / FECIT 1750". Na guarda do púlpito surge afixado caixa de madeira com um açoite e inferiormente documento moldurado com a seguinte inscrição "Na noute do primeiro para o segundo dia de setembro de /1675. derão os Mouros hum as / salto neste cítio desta Ermida a / descudo das guardas, entra / rão pelo porto catiuarão 11 / pessoas, entre molheres e meninos. / e com este chicote as espancaruão / o qual se pos aqui para memoria do / sucesso para que esteja pregando que / se Deus. logo leuantou o castigo foi / talues por não enuoluer mais inocentes; todauia deixou ficar em / terra o açoute com que castigou nes / ta Ermida não tocarão, passan / do de todo por junto dela; como / também no anno de 1616. saque- / ando toda a ilha hé tradição / que a não uirão uendo-os a to / dos quem dentro estaua."

Utilização Inicial

Religiosa: capela

Utilização Actual

Religiosa: capela (festa do orago a 21 de agosto)

Propriedade

Privada: Igreja Católica (Diocese de Angra)

Afectação

Sem afetação

Época Construção

Séc. 15 / 17 / 19

Arquitecto / Construtor / Autor

Desconhecido.

Cronologia

Séc. 15 - construção da primitiva capela; segundo o "Livro da Irmandade de Nossa Senhora dos Anjos e Escravos da Cadeinha" de autoria do padre Francisco da Cunha Prestes, vigário da Igreja Matriz de Vila do Porto, a ermida teria sido fundada por D. Isabel Gonçalves, mulher de Tomé Afonso, natural do Algarve, que pedira o local a D. Beatriz Godim, primeira mulher de João Soares de albergaria, o 2º Capitão donatário (a qual faleceu por volta de 1492-1493, no continente; D. Beatriz deu três alqueires de terra onde se ergue a ermida em troca de outros três que Isabel Gonçalves lhe deu em cima da rocha; 1560, cerca - documento do espólio Velho Arruda, na Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada, refere um Tomé Afonso, casado com Isabel Gonçalves, terem deixado parte dos seus bens para a conservação da capela, levando o investigador Miguel Corte-Real a questionar se eles seriam ou não os primitivos fundadores, ou apenas re-edificadores ou padroeiros da ermida; séc. 16 - época provável da pintura dos painéis do retábulo-mor; séc. 17 - feitura da imagem de Nossa Senhora dos Anjos, feita por Frei Manuel de São Domingos; 1616 - saque da ilha de Santa Maria por mouros que, apesar de passarem junto à ermida, não a viram nem lhe causaram dano, fato que Frei Agostinho de Monte Alverne atribui a um milagre da Virgem; 1674 - até esta data, segundo Gaspar Frutuoso, dentro da capela havia apenas um retábulo antigo que se fechava com duas portas, "estando e costado na parede e chegava a pregar na tacanissa o qual agora está ensserido no meio do retabolo"; 1674, 28 outubro - início da feitura de "um retábulo (...) que até essa data não havia", executado no Convento de São Francisco de Vila do Porto; construção do adro da capela; 1674 / 1676, entre - depois do ataque dos piratas, Frei Gonçalo de São José, que veio para o Convento de Nossa Senhora da Vitória, terá mandado reconstruir a capela com nova traça; 1675, maio - abertura do "caminho que vai pela rocha acima e o fizeram por sua devoção os devotos da Senhora pela dificuldade que havia para poderem descer à ermida"; 1 / 2 setembro - assalto do sítio da ermida por mouros, prendendo 11 pessoas, entre mulheres e crianças, espancando-as com um chicote que acabaram por deixar em terra e que se conserva na capela; setembro - feitura do calvário ou cruzeiro no cimo da rocha", junto ao Caminho Velho; 1679 - oferta do frontal de azulejos do altar-mor pelo benemérito Brás de Andrade Velho, Prior de São Cristóvão de Coimbra; 1750 - data de execução inscrita no resplendor do baldaquino do púlpito; 1826 - era seu padroeiro o morgado Luís de Figueiredo Velho Melo Falcão; 1893 - re-edificação da capela, conferindo-lhe a atual feição; 1956 - fotografia documenta o retábulo-mor com o painel do lado do Evangelho tendo frontalmente e no plano inferior maquineta com imagem de Santa Ana; séc. 20, 2ª metade - colocação do painel de azulejos alusivos ao Espírito Santo na parede fundeira do treatro.

Características Particulares

Constitui a capela e o treatro mais antigos da ilha de Santa Maria, sendo ainda este último o único construído em cantaria e adossado a um templo. A capela primitiva foi construída no séc. 15, possuindo provavelmente estrutura alpendrada, conforme se depreende pela subsistência dos dois portais laterais em arco de volta perfeita, e reformada no séc. 17, data em que possivelmente se fechou o alpendre e compôs a frontaria, e posteriormente re-edificada em 1893. No interior, o púlpito apresenta elegante balaustrada e resplendor com a data de feitura e inscrição. O retábulo-mor possui três painéis pintados muito repintados, o do Evangelho danificado inferior e superiormente, e um outro no ático, já do séc. 17. Frontal de altar da 2ª metade do séc. 17, a imitar brocado com cartela central já com elementos barrocos. Segundo Santos Simões, é um dos frontais de altar mais representativos do género.

Dados Técnicos

Sistema estrutural de paredes portantes.

Materiais

Estrutura em alvenaria de pedra rebocada e pintada; cunhais, pináculos, cruz, pilares, molduras dos vãos, sineira e outros elementos em cantaria; portas de madeira; vidros simples; pavimento em lajes de cantaria; teto de pladur; superdâneo de madeira; coro-alto de madeira; púlpito em "pau branco" (Piconea Excelsa); retábulo de madeira; frontal de azulejos policromos; cobertura em telha.

Bibliografia

AAVV, Arquitectura Popular dos Açores, Lisboa, Ordem dos Arquitectos, 2000; CARVALHO, Manuel Chaves, Igrejas e Ermidas de Santa Maria, em Verso, Vila do Porto (Açores), Câmara Municipal de Vila do Porto, 2001; CÔRTE-REAL, Miguel de Figueiredo. Livro da Irmandade de Nossa Senhora dos Anjos dos Escravos da Cadeínha. Explicações, Notas, Gravuras e Índices, separata da Estrela da Manhã, ano I, nº 1, Boletim da Academia Mariana dos Açores, Horta, 1992; FIGUEIREDO, Jaime de, Ilha de Gonçalo Velho: da descoberta até ao Aeroporto (2ª ed.), Vila do Porto (Açores), Câmara Municipal de Vila do Porto, 1990; MECO, José, Azulejaria Portuguesa, Lisboa, Bertrand Editora, 1989; MONTE ALVERNE, Agostinho, Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores (2ª ed.), Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1986; MONTEIRO, Jacinto, Ermida de Nossa Senhora dos Anjos: monumento histórico mais antigo dos Açores, in Ocidente, Lisboa, 1961; NORONHA, Luísa, A Ermida de Nossa Senhora dos Anjos da Ilha de Santa Maria: contributo para a sua História, Vila do Porto, Câmara Municipal de Vila do Porto, 1992; SANTOS, J. M. dos Santos, Azulejaria Portuguesa nos Açores e na Madeira. Corpus da Azulejaria Portuguesa, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1963; www.inventario.iacultura.pt/maria/vilaporto_fichas/11_992.html, 5 junho 2012.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DRML

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DRML, SIPA

Documentação Administrativa

Intervenção Realizada

Observações

1 - Segundo a tradição, durante o séc. 16, os habitantes desejavam erguer um templo nos Anjos, local onde Gonçalo Velho e os seus marinheiros tinham desembarcado e rezado a primeira missa na ilha e nos Açores. A população queria construí-la no local mais baixo, onde hoje se ergue, mas os responsáveis pela obra começaram a juntar a pedra no cimo do rochedo. Acontece que as pedras aí depositadas pelos trabalhadores, durante o dia, apareciam, na manhã seguinte, sem se saber como, no local mais em baixo, levando-os a culpar a população de deslocar a pedra, durante a noite, para o lugar onde queriam construir a ermida. Certa noite, passando na zona um pescador, viu que as pedras se moviam sozinhas pela encosta para o lugar mais baixo, correndo assustado a contar ao mestre da obra o que vira; este foi ao local com os trabalhadores e ridicularizaram o pescador, decidindo, no entanto, voltar na noite seguinte. Nessa noite, também eles viram as pedras começar a rolar, seguindo a imagem de Nossa Senhora. Decidiu-se assim, definitivamente, erguer a ermida no lugar assinalado pela Senhora e originalmente escolhido pela população e um cruzeiro no local inicialmente desejado pelos mestres, para recordar o milagre.

Autor e Data

Paula Noé 2012

Actualização

 
 
 
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