Núcleo urbano de Cacela Velha / Aldeia de Cacela Velha

IPA.00011041
Portugal, Faro, Vila Real de Santo António, Vila Nova de Cacela
 
Vila de fundação de ordem religiosa militar com fortaleza situada em costa marítima. Antiga vila medieval da orla costeira algarvia, implantada sobre estruturas romanas e islâmicas, defendida por fortaleza quinhentista com a frente marítima abaluartada. Perímetro urbano quase circular, delimitando um conjunto edificado pouco denso, organizado em redor da praça, espaço quase centralizado onde se conjugam os vários equipamentos urbanos tradicionais: a igreja, a casa da Câmara, a casa da Misericórdia e a fortaleza. Adaptação do casario e dos eixos viários à topografia. Conjunto composto por casas térreas com açoteia ou telhado de duas águas, onde se destaca a chaminé de base quadrangular e secção piramidal. Apresentam planta rectangular, com pequenos pátios fronteiros às casas, com árvores de fruto e floreiras. Sede concelhia medieval. Conjunto de reduzidas dimensões, contando escassos quarteirões, onde a malha urbana não chega a ganhar consistência, apesar da centralidade da praça. Inexistência de toponímia e de números de polícia. Continuidade da ocupação do lugar desde a Época Pré-clássica. Notável conjugação entre o valor arquitectónico, urbano, paisagístico, adquirindo o espaço e território envolventes papel fundamental na singularidade de Cacela Velha. Este conjunto, de grande valor histórico, conjuga harmoniosamente o património edificado e a sua localização privilegiada na área de protecção do Parque Natural da Ria Formosa. O cemitério antigo possui uma capela-altar com algum interesse e um ossário particularmente raro.
Número IPA Antigo: PT050816010002
 
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Registo

 
Conjunto urbano  Aglomerado urbano  Vila  Vila medieval  Vila fortificada  Ordem religiosa militar (Ordem de Santiago)

Descrição

Conjunto de reduzidas dimensões, preservando a estrutura medieval e quinhentista. Com um perímetro aproximadamente circular, é delimitado a S. por muralha de alvenaria e pela Fortaleza, a E. por muralha de taipa e a O. pelo cemitério da freguesia. O espaço edificado estrutura-se em redor da praça principal, onde existiu o pelourinho e onde agora se situa uma cisterna. Esta praça apresenta duas plataformas distintas, separadas por um murete. A inferior, localizada em frente da entrada principal da Fortaleza, é marcada pela presença recente de cinco palmeiras das Canárias de grande porte, que constituem um obstáculo visual na percepção do conjunto e da sua relação com a Ria Formosa. A plataforma mais alta integra a antiga cisterna sobreelevada, assente em estruturas habitacionais datáveis do séc. 14. Este espaço único é marcado pela coexistência de um conjunto de edifícios significativos: a Fortaleza dos Cavaleiros de Santiago de Cacela, quinhentista e parcialmente abaluartada, a Igreja Matriz (v. PT050816010008) de raiz medieval mas reedificada no séc. 16, a Casa da Misericórdia, adossada à igreja, o cemitério antigo e a Casa do Pároco (construção robusta em taipa, assente sobre fundações de alvenaria, suportada por contrafortes e sobreelevada em relação à cota da rua). A antiga Casa da Câmara, outrora localizada neste espaço, encontra-se actualmente adossada a casas de construção mais recente, tendo surgido posteriormente uma banda de casas com pátio, entre esta e a Fortaleza. É uma edificação de pequenas dimensões, apenas com uma porta, ladeada por cantaria em pedra calcária. As restantes habitações, cerca de vinte, são de construção mais recente (séculos 19 e 20) e dispõem-se em banda ao longo dos acessos principal e secundários, que se orientam segundo a topografia, com as necessárias adaptações, através de escadas públicas e de acesso às casas. O conjunto edificado é maioritariamente composto por casas térreas, muitas com açoteia, cujos elementos de composição das fachadas se inserem na arquitectura vernácula da região algarvia (platibandas decoradas, chaminés, lágrimas nos remates laterais, vãos com molduras decorativas em argamassa caiada a ocre e/ou a azul). De realçar, à entrada da aldeia, a única casa de dois pisos não adulterada, com duplo beirado e acesso lateral por escadaria. A transição entre espaço edificado e não edificado é conformado a N. pela existência de logradouros murados, onde predominam as árvores de fruto (laranjeiras, pessegueiros e limoeiros). Os pavimentos são maioritariamente em calçada à portuguesa, pontualmente em terra batida. O acesso à ria faz-se a SO. por uma escadaria em paralelepípedos de calcário, parcialmente encoberta por canaviais e, a NE., por um caminho em terra batida.

Acessos

EN125, EN1242

Protecção

Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto nº 2/96, DR, 1ª série-B, nº 56 de 6 março 1996 / ZEP, Portaria nº 83/2010, DR, 2ª série, nº 18 de 27 janeiro 2010 e Portaria nº 264/2010, DR, 2ª série, nº 73 de 15 abril 2010 / Incluído no Parque Natural da Ria Formosa e na Zona de Proteção Especial da Ria Formosa (Rede Natura 2000)

Enquadramento

Rural e marítimo. Sobranceira à Ria Formosa, Cacela Velha implanta-se numa falésia do Miocénico, 26 metros acima do nível médio do mar. Toda a envolvente é caracterizada por vegetação de pequeno porte, com concentração de grandes manchas de piorno e de figueiras da Índia. A NE. a paisagem é estruturada pela ribeira de Cacela, que alberga ainda uma importante jazida fossílifera, cuja transição para a Ria Formosa é feita por abundantes áreas de piorno. A N. a paisagem é enquadrada por um espaço de grande amplitude associado a prado de sequeiro. A freguesia de Vila Nova de Cacela forma uma faixa, no sentido N./S., com cerca de 50 Km2, encaixada entre os concelhos de Castro Marim e Tavira. A sede da freguesia (Vila Nova de Cacela), de fundação recente, situa-se junto à EN 125. Aí se localizam os serviços de saúde, escolas, comércio, correios, mercado e cooperativa agrícola, mantendo-se a actividade religiosa centrada em Cacela Velha. Toda esta área, correspondente ao termo da antiga sede concelhia de Cacela, caracteriza-se por um conjunto de valores arqueológicos e históricos representativos de várias épocas, assim como por uma paisagem de campos cuidadosamente cultivados, alternados com matos de vegetação autóctone e casario de arquitectura tradicional. Enquadrada na área de protecção do Parque Natural da Ria Formosa, o cordão dunar da península de Cacela, garante da permanência de uma zona lagunar na Ria Formosa, oferece excelentes condições naturais para a pesca, produção de bivalves e recolha de marisco. Encerrando o extremo E. do Parque Natural da Ria Formosa, a península assegura as actividades antrópicas de toda esta zona costeira, uma vez que impede o avanço do mar. Integra a serra de Cacela, que se localiza no declive E. da serra do Caldeirão. Nas proximidades existem ruínas de uma fábrica de cerâmica que funcionou nos anos 40, dando nome ao lugar. A faixa litoral integra ainda sólos de elevado potencial agrícola, onde se praticam culturas de citrinos, vinhas e culturas de sequeiro. Na área circundante à aldeia salienta-se um diversificado património hidráulico: poços, fontes, diques e canais, bem como um núcleo arqueológico islâmico. A via de entrada na povoação é visualmente reforçada por um alinhamento de amendoeiras, associado à localização das áreas de estacionamento disponíveis para os visitantes, já que a circulação automóvel na aldeia está reservada apenas aos habitantes.

Descrição Complementar

Não aplicável

Utilização Inicial

Não aplicável

Utilização Actual

Não aplicável

Propriedade

Não aplicável

Afectação

Não aplicável

Época Construção

Séc. 13 / 16 / 18

Arquitecto / Construtor / Autor

Desconhecido

Cronologia

Época Pré-clássica - abrigava uma importante póvoa marítima dos cúneos. Os fenícios ter-se-ão aí estabelecido sob a observação dos cúneos. Os galo-celtas fundiram-se com os nativos e remodelaram a fortificação, dando à povoação o nome de Cunistorges; séc. 3 a.c., início - os cartagineses ocuparam o lugar; Época Romana - estabelecimento de uma importante base militar. Identificada a presença romana em Cacela Velha por Estácio da Veiga e José Leite de Vasconcelos. O tipo de vestígios e a dimensão dos sítios reforça a tese da existência de uma densa malha urbana nesta época, ligada por vias terrestres e marítimas. Verifica-se também uma continuidade de ocupação de sítios romanos na transição para o período islâmico; 713 - conquista pelos mouros, desenvolvendo-se o núcleo islâmico de Qastalla, integrado no Algarve Hícene Cacetala (Castella); séc. 12, início - referida por Al-Idrisi como tendo "uma fortaleza construída há beira-mar. Está bem povoada e há nela muitas hortas e campos de figueiras". Cacela era assim um importante entreposto militar que defendia um Algarve densamente povoado e urbanizado, inserido no "grande mercado mediterrânico". Escavações arqueológicas realizadas no núcleo islâmico de Cacela Velha permitiram identificar uma estrutura urbana abandonada no final do período almóada. A área posta a descoberto inclui três casas de planta quadrangular com pátio interior, dispostas ao longo de um arruamento, comprovando que o "iqlim" de Cacela sofreu no período almóada um aumento populacional considerável (PICARD); 1240 - conquista aos mouros por D. Sancho II e doação à Ordem de Santiago; 1242 - após novo período de dominação islâmica foi retomada por D. Paio Peres Correia; 1249 - D. Afonso III confirmou a doação feita à Ordem de Santiago, pelos bons serviços prestados pelo comendador Paio Peres Correia durante as campanhas da Reconquista. O monarca mandou reedificar a fortificação medieval composta por um forte castelo e uma cintura de muralhas que defendia a povoação e se estendia por terras hoje submersas pelas águas do mar; 1283 - D. Dinis concedeu-lhe foral com a categoria de vila; 1465 - referência à acentuada desertificação da vila, devido ao facto dos seus habitantes terem ido combater para Ceuta e Alcácer; 1521 / 1578 - nos reinados de D. João III e de D. Sebastião, estando as estruturas defensivas medievais quase desmanteladas, foi mandada construir a actual fortaleza; 1538 - a Igreja de Nossa Senhora da Assunção encontrava-se em construção, implantando-se sobre as ruínas da igreja medieval, conforme consta da Visitação feita pelos oficiais da Ordem de Santiago; 1565 - ainda existia a pequena igreja primitiva em madeira, com invocação de Nossa Senhora dos Mártires, a "quall foy Igreja Matriz desta Villa". Neste ano os visitadores da Ordem descrevem a fortaleza: "Visitámos ho castello ho quall he todo murado e a muralha reformada de novo ho quall he quadrado e tem em cada canto sua torre" (CAVACO, 1987); 1617 - levantamento de Alexandre Massai; o castelo encontrava-se arruinado, não havendo moradores na vila; proposta para se "desmanchar" o castelo e extinguir a povoação; 1661 - alusão à existência de uma Casa da Misericórdia; 1621 - planta da fortaleza, da Descrição do Reino do Algarve, feita por Alexandre Massaii; 1675 - possível data da fundação da Irmandade da Misericórdia de Cacela; 1750 - era Prior Manuel Gonçalves Crespo, também Capitão-mor da Vila (CAVACO, 1987); 1755 - o terramoto deixa muito arruinadas a fortaleza e a igreja matriz; 1758 - existiam 291 fogos na vila e cerca de 828 habitantes; 1760 - incêndio na povoação; 1770 - D. Rodrigo de Noronha, governador do Algarve, mandou reconstruir a fortaleza, nela instalando um farol; 1774 - extinção da sede concelhia em Cacela, decretada pelo marquês de Pombal; 1775 - levantamento de José de Sande Vasconcelos, "Carta topográfica dos baldios e terras incultas", onde se encontra representado o pelourinho; 1794 - D. Nuno José Fulgêncio de Mendonça e Moura, conde de Vale de Reis, finalizou a reconstrução da fortaleza, sendo inspector da obra José Caetano de Andrade e Castro, guarda-mor da cidade de Tavira, conforme consta da inscrição conservada no portal (OLIVEIRA, 1908); 1795 - terá sido finalizada a recuperação da igreja matriz, obra realizada por iniciativa do bispo D. Francisco Gomes de Avelar; 1833 - desembarque liberal em Cacela, tendo as tropas do duque da Terceira conquistado o Algarve em poucos dias; 1840 - apenas existia a igreja, as ruínas da antiga Casa da Câmara (em frente da entrada da fortaleza), as residências do pároco e do sacristão e cerca de seis ou sete casas; 1841 - referência ao aparecimento de alicerces e ruínas no lado N., indiciando que a antiga vila se desenvolveu nessa zona (LOPES, 1841); 1897 - as dependências da fortaleza foram ocupadas pela Guarda Fiscal; 1918 - desactivação do cemitério; 1970, finais - instalação da rede de distribuição de água; 1987, Janeiro - definição de zona especial de protecção por despacho do Ministério da Cultura; 2001 - conta cerca de 50 habitantes; 2010 - definição da ZEP, por portaria.

Dados Técnicos

Estrutura mista, paredes em taipa (Casa do Pároco) e alvenaria de pedra; reboco de cal e areia; cobertura com telha de canudo assente sobre caniço; cobertura em açoteia revestida a ladrilho, assente sobre madeira (dormentes)

Materiais

Não aplicável

Bibliografia

COSTA, Carvalho da, Corografia Portuguesa, Tomo III, p.10, Lisboa, 1706; LOPES, João Baptista da Silva, Corografia do reino do Algarve, Lisboa, 1841; VEIGA, Estácio da, Archeologia: projecto de legenda symbolica para a elaboração e interpretação da carta de archeologia historica do Algarve (...), Lisboa, 1885; ALMEIDA, João de, Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses, Lisboa, 1948, vol. III; OLIVEIRA, Ataíde, Memórias para a história eclesiástica do Bispado do Algarve (...), Porto, 1908; CAVACO, Hugo, Cacela no Século XVII (Dez anos de Governo Autárquico), Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, 1990; BAPTISTA, Desidério Sares, Bases para uma proposta de salvaguarda e valorização do núcleo histórico de Cacela e da zona especial de protecção (Ms.), Universidade de Évora, 1997; COUTINHO, Valdemar, Castelos, Fortalezas e Torres da Região do Algarve, Vila Real de Santo António, 1997; Plano de intervenção de Cacela, Relatório de seguimento - CCR Algarve, (Ms.), 2001, www.terravista.pt/portosanto/1393/velha.htm, Dezembro 2003; www.mouraencantada.com/moura, Fevereiro 2004.

Documentação Gráfica

DGEMN: DSID (Levantamento do Arq. Cabeça Padrão 1967); CCRAlg (Comissão de Coordenação da Região do Algarve); CMVRSA (Câmara Municipal de Vila Real de Santo António); IPPAR; AHM: Planta de Cacela; BN: Planta da "Fort. d'Cacella", José de Sande Vasconcelos; Planta de Cacela, Alexandre Massay, 1617; Carta topográfica dos baldios e terras incultas, José de Sande Vasconcelos, 1775 (http://www.arkeotavira.com/Mapas/Sande/Cacela-1776-web.pdf)

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID (Levantamento do Arq. Cabeça Padrão 1967), DGEMN/DREMS; CCRAlg; CMVRSA (Idem)

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREMS; CCRAlg; CMVRSA; ADRIP; DGARQ/TT: Memórias paroquiais, vol. 8, nº 27, p. 149 a

Intervenção Realizada

DGEMN: 1945 - reparação das muralhas, incluindo o enchimento com argamassa em vários pontos; reparação geral de rebocos; construção e assentamento de portas e caixilhos de castanho incluindo pinturas. IPPC: 1970 - levantamento arquitectónico; 1991 - embargo das obras da Guarda Fiscal; 1992 - levantamento arquitectónico. CMVRSA: 1990 - obras de recuperação; 1992 - iluminação pública, restauro e conservação da igreja; 1998 - campanha arqueológica com recolha de espólio cerâmico; 2001 - execução da 2ª campanha arqueológica, estudo e informatização dos materiais cerâmicos da campanha de 1998; 2002 - obras de consolidação da muralha de taipa e arranjos do espaço envolvente em curso, da autoria do arquitecto José Alberto Alegria; PNRF: 1998 - drenagem da muralha S. de Cacela Velha.

Observações

*1 Classificado pelo Plano de Ordenamento do Parque Natural da Ria Formosa como zona de uso extensivo e limitado de recursos naturais (artºs 8º e 9º do DR nº 2/91 de 24 de Janeiro). O trabalho sobre Cacela do Arq. Cabeça Padrão tem a designação de "Prospecção, preservação e recuperação de elementos urbanísticos e arquitectónicos notáveis, em áreas urbanas e marginais viárias, na Região do Algarve, Fase I, preventiva e de execução prioritária, Cacela" Na zona envolvente, destaca-se a aldeia de Santa Rita, que marca a fronteira deste território com as terras do barrocal: povoação antiga, compõe-se de um pequeno casario em torno de uma ermida setecentista; nas suas proximidades existem as ruínas de uma barragem romana, indiciando o povoamento neste período até à orla montanhosa. Existência de várias associações culturais e de defesa do património: ADRIP, Associação de Defesa, Reabilitação, Investigação e Promoção do Património Natural e Cultural de Cacela; ADIFAB, Associação para Defesa e Investigação do Sítio de Cacela; Associação Cultural Amigos de Cacela. A gastronomia tradicional constitui um importante factor de atracção turística. Em 1998, a Câmara Municipal de Vila Real de Santo António e o Parque Natural da Ria Formosa, em colaboração com a Comissão de Coordenação da Região do Algarve, redigiram o documento "Plano de Intervenção de Cacela. Estudo Prévio". Também em 1998, a CMVRSA e o PNRF procederam ao levantamento da arquitectura tradicional, reconhecimento geotécnico e estrutural, levantamentos topográficos e fotogrametria das muralhas antigas.

Autor e Data

Cristina Garcia, Miguel Costa (CCRAlg) / Anouk Costa, Teresa Ferreira 2002

Actualização

Anouk Costa, Cláudia Morgado, Rita Vale 2010
 
 
 
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